segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Pílulas de filosofia

O elevador apertado e antigo do prédio na Rua Prado Júnior o deixava ainda mais desconfortável. Era como se ficasse mais evidente que ele não tinha onde se esconder. Ficava mais claro que não havia rota de fuga. Se alguém entrasse ali, o enxergaria. Não havia dúvidas. E ele não teria o que dizer, como explicar que ele estava em um prédio em uma rua conhecida por ter puteiros em todos os quitinetes? Nem adiantava tentar começar a dizer que ele não estava ali por isso, para isso, porque ele também não poderia explicar – não tinha como – o que ele estava fazendo, sem cair também no julgamento moral das pessoas. Era errado, era ilegal. Ficava exposto. Ele poderia ir preso. Nilton preferia quando tinha que ir aos morros. Era, ao menos, e por um lado, mais discreto. Apesar de ficar claro para os moradores da favela o que ele estava fazendo ali – já que ele claramente não pertencia ao ambiente – ao menos era improvável – ele sempre imaginou – que encontrasse um conhecido.



Bem, ele achava isso até que o improvável, que sempre dá um jeito de acontecer, aconteceu. Era uma quarta, de noite, estava quente do verão mais quente. Desesperado, em casa, numa ansiedade que não tinha televisão, filme ou caminhada na rua aleatoriamente que diminuísse, que ele subiu o morro. Ele precisava de um pouco, só um pouco nada demais. E aí, ele encontrou a mais improvável das pessoas na mais improvável das situações – que, depois, se mostrou ainda mais improvável.  Era a sua vizinha de porta: uma senhorinha de cabelos azul-claro, que, no prédio, aparentava ter dificuldade de se locomover e, lá no morro, se esgueirava como uma gatuna profissional. Pelo que Nilton pôde perceber, ela também estava tentando se esconder, passar despercebida num ambiente que não era fácil ser discreto. Os dois se viram, fingiram que não se viram, depois admitiram que se viram, e se cumprimentaram, mas não conversaram na hora. Ele subiu, ela desceu, os dois sabiam o que o outro fazia ali, mas passaram em branco.

Meses depois, foi ela, dona Lourdes, quem lhe indicou o endereço de Copacabana, esse endereço, deste elevador que ele sobe agora, assim que começaram as pacificações. Foi ela quem tomou a iniciativa do diálogo, quebrou a falsa moralidade com delicadeza e cuidado, e colocou debaixo da porta de Nilton um bilhete perguntando se ele já sabia onde poderia comprar mais. À negativa de Nilton, ela dizia que já estava velha para continuar se expondo assim e pedia para ele lhe fazer o obséquio de, caso ela lhe entregasse um novo contato, comprar para ela também. Ela lhe entregaria, sempre que necessário, uma lista de compras. Ele, com uma espécie mais sutil de pena, e porque estava sem qualquer contato – e a fissura estava aumentando fortemente –, aquiesceu.

Subia no elevador quase rezando para que ninguém conhecido entrasse ali. Morava perto, no Flamengo, e não seria improvável que alguém pudesse passar por ali. Mas... o que essa outra pessoa estaria fazendo ali?, pensou e isso lhe deu uma espécie de segurança. Por que alguém conhecido estaria subindo um elevador na Prado Júnior? Ao mesmo tempo que esse raciocínio o deixou mais aliviado, pensou que ele poderia ser visto na saída do prédio. Alguém poderia passar em frente. Não adiantava. Nilton estava no grau máximo da fissura: a neurose. Qualquer barulho atraía sua atenção. Qualquer movimento em falso. Imaginou que suas pupilas estivessem dilatadas como as de um gato. Seu coração, em disparada. Décimo-primeiro andar. O elevador faz um “plim” e ele empurra a porta para respirar. Sem perceber, tinha segurado a respiração por todo o trajeto, como se o ar ali dentro fosse contaminado. Era sempre assim quando ia “visitar” o Beto. Sempre ficava nervoso. Não melhorava em nada o fato de metade das lâmpadas do corredor estarem queimadas. O ambiente lúgubre o lembrava que ele estava fazendo algo errado. Que ele poderia ser pego. Que ele deveria se envergonhar.

Um dia encontrou um galã de novelas no hall de entrada do prédio. Um desses de quase 50 anos, que fazem os protagonistas, tem uma família feliz e que você nunca iria desconfiar de encontrar num ambiente como esse. Mas ele estava. E agia como se nada fosse estranho. Quando chegou o elevador ao térreo, Nilton ainda tentou manter a esportiva, entrar no jogo teatral do ator e perguntou se ele – o ator – não iria subir. O ator, sorrindo aquele sorriso que ele já tinha visto num comercial de banda larga, disse que não, que estava bem ali. Certamente também ficou preocupado. Certamente. Será? E se alguém tirasse uma foto dele no prédio? Mas não poderiam associar ele ao prédio. Não dava para enquadrar ele e o prédio. E se desse, ele – o prédio – ficaria muito pequeno. Além disso, o prédio não tem nada demais, exteriormente: como provar que ele estava na Prado Júnior? Enfim, enfim, enfim...



Tocou a campainha e Beto não demorou a recebê-lo.

“Niltinho! Quanto tempo! Tá querendo me deixar pobre? Entra, entra, não fica aí na porta que a gente nem consegue conversar direito.”

Beto era assim, uma tempestade de palavras. Um sujeito estranhamente extrovertido, principalmente para um negócio que, em tese, exigia perfis menos públicos.

“Oi, Beto” – diz apenas, Nilton, quieto, tentando aparecer o mínimo possível.

“Diz aí, Niltinho, quer uma água, uma cerveja, uma provinha, alguma coisa?” – dá uma pausa, meio forçada, para fazer a sua piada de sempre: “Uma maçã? Rá!” – diz e dá a mesma gargalhada de sempre.

“Não, não, Beto, não vou me demorar” – diz apressado Nilton, na tentativa de parar aquele sorriso exagerado.

“Senta aí. Take it easy, tá?” – Beto mostra do sofá – “Mi casa, su casa. Se você não se sentir à vontade aqui, estou ferrado. Não vou me sentir bem” – fala e, de repente, está num monólogo:  “Nilton, um dos meus melhores clientes, Ce n’est pas possible!” – e voltando a falar com Nilton: “Aqui, Niltinho, é tutti buona gente.”

Nilton ficava extremamente entediado com essa exibição gratuita de Beto. Ficou em silêncio, esperando que ele acabasse, e logo Beto foi ao assunto.

“Então, Beto, já que você não está muito para conversa hoje, vamos direto ao assunto: o que vai querer?”
Nilton mostra a lista que dona Lourdes lhe havia entregue, num papel de alta gramatura, dentro de um envelope que parecia, quase, de casamento.

“Essa dona Lourdes... Ela é mó barato, né, Niltinho?”

“Eu... eu não a conheço direito. Ela é minha vizinha, mas nós nunca falamos muito.”

“Sugiro você filar uma das pamonhas que ela faz. São divinas. Ela é do interior de São Paulo. Veio para o Rio quando o marido foi transferido. Desde que o marido morreu, ela virou minha cliente. Cliente preferencial. Sempre pede do melhor. E você? O que vai ser hoje?”

“Eu... eu não sei direito. To meio perdido. O que você me deu na última vez não bateu direito. Fiquei muito agressivo, muito desorientado...”

“Nietzsche? Poisé. Ele tem esses efeitos colaterais, mesmo. Você começa a achar que é o verdadeiro super-homem. Acha que o mundo inteiro tem que se curvar à sua vontade. É complicado. E cria-se um paradoxo: é como se devêssemos tomar doses muito homeopáticas, mas aí, ao ser mais cuidadoso, o efeito de Nietzsche não seria o efeito de Nietzsche: para ser Nietzsche, não pode haver meio termo. É uma bomba.”

“Fiquei muito inseguro, como um adolescente.”

“Imagino, imagino.”

“O que a dona Lourdes pediu dessa vez?”

“Dona Lourdes é uma senhora mais velha, né, gosta dos grandes clássicos: Sócrates, Platão e Aristóteles. Quatro de Sócrates-Platão [os dois vêm juntos, numa embalagem dois em um] e quatro de Aristóteles.”

“Quatro de cada? Quatro?”

“Ela é uma mulher forte, e com bastante tempo livre.”

“Dá até um pouco de inveja.”

“Quer tentar um deles? Tenho aqui um pedacinho de Sócrates – eu considero o máximo, mesmo que tenha algumas ressalvas. Elegante, cínico, ácido, afiado. Para aqueles dias em que você precisa abalar numa balada.”



“Queria algo mais calmo...”

“Hum, mais calmo... aqui... vai ser complicado... mas, deixe-me ver... Que tal, então, algo completamente diferente do de sempre? Que tal um santo Agostinho? Hein? Se não, se achar muito radical, ao menos um escolástico? E aí não temos como fugir: teria que ser são Tomás de Aquino. Hein, que tal? Dão sempre segurança, certeza, verdades, um porto para atracar quando o mar tá tão revolto. Sai muito, sabia? Por mais que, hoje, eles tenham ficado fora de moda, que as pessoas, em geral, não falem muito deles, ainda circulam bem. E, eu acrescentaria: acho que tendem a crescer mais. Aliás, o que acha de Kierkegaard? Segurança, quase contemporâneo, quase vintage. É cool ser retrô, hoje em dia.”

“Acho que não dá... Me disseram que há um problema grave com eles...”

“Que problema?”

“Um problema grave... íntimo...”

“Ah, a impotência? Bem, é verdade. Eles não são muito, assim, potentes. E você, que vem de Nietzsche... é melhor não, mesmo.”

“Descartes, me falaram que Descartes é legal.”

“Hum... eu acho que é muito... como direi... cerebral. Você vai ficar lá, parado, viajando, pensando, dentro da sua cabeça, e não vai fazer nada mais, e se esquece que há um mundo aí fora.” [Silêncio.] “Já sei: Kant!”

“Quem?”

“Kant. Ele vai te mostrar o que você sabe – e o que você não pode saber. E a partir daí, vai ficar muito claro para você o que é categoricamente imperativo.”

“Pô, gostei, hein.”

“Só tem um problema.”

“Qual?”

“Ele é muito crítico.”

“Voltamos à estaca zero.”

Toca o telefone. Beto se levanta.

“Niltinho, dá um minuto? Fica aqui com o cardápio, que eu já volto.”

Nilton começa a ler. Apesar de falastrão, Beto era totalmente organizado. Parecia que Nilton estava fora do país. Galileu: Corpo científico, notas de empirismo, leve traço de experiências em geral, ceticismo profundo, e alto grau de dificuldade em lidar com questões ligadas à autoridade. Heidegger: sentimentos controversos com relação a instituições infinitamente deploráveis, sensação de retorno a um passado remoto, mergulho em busca incessante pelo Ser, raspas do tacho da metafísica, pensamentos autorreferentes sobre o pensamento. Possibilidade de bad trip. Marx: sociabilidade extremada, toques revolucionários de... “Não.” Diógenes: aumento de cinismo a níveis pré-pós-modernidade, antissociablidade exagerada, busca em si pelo homem verdadeiro... Volta Beto.

“Niltinho, é isso aqui, não tenho dúvida” – e lhe entrega o pacote.

“Baruch Spinoza” – lê Nilton.

“Isso. Origem na península ibérica – alguns dizem Portugal, outros Espanha, quem vai saber de verdade? – mas desenvolvido na Holanda. Onde é o melhor para se crescer que a Holanda, hein? Foi proibido entre os judeus, era mal-visto pelos cristão, mas era um gente fina. É ter contato com ele e sentir que tudo faz parte do todo.”

“Interessante... Mas, cara... eu não sei bem  o que eu quero...”

“Aí, complica, Niltinho, aí, complica...”

“Faz o seguinte: me vê 200 gramas daquele Nietzsche, 200 desse Baruch, 200 do Diógenes, gostei dele...”

“... Ótimo, Diógenes é pouco conhecido, mas ótimo. Muitas boas histórias...”

“... E 200 do Kant.”

“Faz o seguinte, leva mais 200 do Heráclito, que está saindo muito pouco nesses dias, que eu te faço um abatimento. E você sabe: aqui, tudo é original, direto da fonte. Nada batizado.”

“Demorô.”

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